Seria Muito Errôneo Desejar
Uma Longa Amnésia de Lembranças Suas?
Nossas?
Hoje me peguei pensando em você e resolvi em cartas desabafar tudo o que não posso dizer.
Sabe, querendo ou não ainda sinto sua falta, sinto falta de nós, de tudo o que podíamos ter sido e não fomos, de tudo aquilo que sonhei pra gente.
Tem momentos que me pego pensando no casamento que jamais teremos, em nossos filhos, cabelos negros como os meus e olhos de um azul tão profundo quanto o oceano, como os seus, aqueles pelos quais me apaixonei, nos quais encontrei-me perdida por tantas vezes, me pego sonhando com nossa casinha, com vista pro mar, lembra?
Penso que poderíamos ter sido mais, muito mais, podíamos ter ido além, podíamos, mas é sobre nós, então nem sei porque mesmo foi que nutri tantas esperanças.
Talvez se não fosse nós teria dado certo, mas não deu, não foi, então prefiro crer que não era pra ser, não eu e você, não nós, não agora.
Tem horas que tudo o que quero é te esquecer, arrancá-lo de vez de meu peito e colocá-lo para fora de meu coração, então fecho os olhos e por entre soluços desejo enterrá-lo de vez, penso que talvez tivesse sido melhor apagar seu número da minha agenda de contatos para não correr o risco de ligar, sabe?
Eu simplesmente desejo com todas as minhas forças expulsá-lo de mim, de coração quebrado desejo esquecer o quão profundo é seu olhar, de corpo e alma desejo esquecer do arrepio que seguia cada toque, do doce gosto de menta que ficava em meus lábios a cada beijo, queria esquecer apenas, esquecer seu jeito birrento e teimoso, seu jeito carinhoso de me abraçar, seu orgulho de nunca dar o braço a torcer.
Fecho os olhos e apenas desejo esquecer de tudo, ter uma amnésia de lembranças suas, esquecer tudo o que me faz lembrar você, o que me faz lembrar a gente, o que vivemos, mas não posso, não consigo, é inevitável.
As lembranças vem como avalanches e em poucos segundos encontro-me soterrada.
E nem falo das lágrimas.
Elas vem como leve garoa e logo tornam-se grandes tempestades, as quais acabam por afogar-me por entre a brisa cortante da noite imensa, negra e deserta, e eu não sei nadar, lembra?
Você não chegou a me ensinar como havia prometido.
Acabamos antes, antes que pudesse me dar conta, antes que pudesse impedir, antes que pudesse ao menos cogitar lembrar-se desta tão mera promessa boba.
Talvez tenha sido por saber que já fazias parte de mim que para não machucar-me ao arrancá-lo de meu peito enterrei-o ali mesmo, em meu coração, decidi deixá-lo ali quietinho, esquecido, enterrado.
De verdade, achei que funcionaria, que assim não seria capaz de me machucar mais, e eu mesma não precisaria machucar-me ao arrancá-lo dali e colocá-lo para fora.
O problema é que agora percebo que realmente teria sido melhor tê-lo feito, foi burrice minha, mancada, pois na verdade ainda está ali, ainda faz parte de mim, ainda tem lugar em meu coração, é pedaço meu, ainda sabe meus pontos fracos e às vezes ressurge em forma de lembranças e deixa-me às avessas.
Exatamente como agora.
Tamiris Kichler



